Há alguns que, nos últimos meses, estão a reforçar mais os custos do crédito. Saiba quais são as entidades bancárias subiram os preços.

A escalada dos spreads não tem fim à vista. Nas últimas duas semanas, seis bancos mexeram nos seus preçários, subindo novamente este indicador. Entre os bancos que realizaram novas subidas estão BCP, BES, Santander Totta, Montepio, Crédito Agrícola e Deutsche Bank. As mexidas afectaram tanto os spreads mínimos como os spreads máximos- aplicados aos clientes com maior perfil de risco. Este é apenas mais um dos muitos movimentos que os bancos encetaram desde o início do ano e que se multiplicaram depois dos cortes de ‘rating’ que a república portuguesa foi alvo e após o pedido de ajuda externa.





Comparando os preçários actuais com os de Dezembro do ano passado é possível verificar que os bancos que mais agravaram os spreads nos últimos cinco meses foram o BBVA e o Deutsche Bank. A instituição liderada em Portugal por Alberto Charro tinha em Dezembro um spread mínimo de 0,4% e um spread máximo de 2,65%- valores que figuravam entre os mais baixos praticados no mercado nacional. A realidade de hoje é bem diferente, já que o BBVA pratica actualmente um spread mínimo de 1,9% e um spread máximo de 5,95%. No Deutsche Bank o fenómeno repete-se. O spread mínimo é agora de 2%, quando em Dezembro se situava nos 0,45%. Ou seja, no espaço de cinco meses, o DB mais que quadruplicou o valor do seu spread mínimo. Também o spread máximo sofreu um agravamento considerável, ao subir dos 2,6% em Dezembro do ano passado para os actuais 5,25%. Os números mostram que os bancos estrangeiros, que até há pouco tempo conseguiam praticar spreads mais baixos face aos ‘players’ nacionais, estão a aproximar as condições do crédito à habitação do resto do mercado. Fonte do Deutsche Bank justifica estas subidas generalizadas com o estado da economia portuguesa: “Em matéria de spreads, os mesmos dependem dos níveis a que os bancos conseguem obter liquidez, dos custos com o malparado e dos custos do capital necessário para cumprir os rácios prudenciais. A tendência destas três vertentes tem sido ascendente nos últimos anos, resultado da dificuldade ao nível económico em Portugal”. A mesma fonte refere que novos movimentos de subida de spreads dependerão da evolução da economia portuguesa nos próximos tempos.

O economista e presidente da IMF, Filipe Garcia, também avança com uma justificação para os bancos estrangeiros estarem a praticar condições mais conservadoras na concessão de crédito. ‘Penso que [a subida dos spreads pelas instituições estrangeiras] terá a ver com o facto de esses bancos terem já conseguido, ou até ultrapassado, a exposição desejada ao país. Uma vez chegados a esse ponto, começaram a praticar spreads consentâneos com o risco-país’, explica Filipe Garcia.

Mas a subida de ‘spreads’ não afectou apenas os bancos estrangeiros. Olhando para os preçários das instituições portuguesas é possível verificar que o BES e o Crédito Agrícola também fizeram ajustes relevantes nos ‘spreads’ praticados no crédito à habitação. Mas o certo é que, de uma forma geral, fazer um crédito à habitação é hoje mais caro do que há cinco meses atrás. Não só pela via do aumento dos ‘spreads’, mas também devido à subida das taxas Euribor. Se tivermos em conta a média dos ‘spreads’ mínimos praticados actualmente pelos cinco maiores bancos portugueses (que detêm a grande fatia do mercado de crédito à habitação) e que se situa nos 1,99%, fazer um crédito de 100 mil euros, indexado à Euribor a seis meses com um prazo de 30 anos, comportaria um encargo mensal de 460 euros euros. Ou seja, mais 55 euros do que em Dezembro do ano passado, seguindo os mesmos parâmetros.

Spreads mínimos de 2%

Neste momento, será muito difícil encontrar bancos que tenham um ‘spread’ mínimo abaixo de 2%. Isto porque há pelo menos oito instituições que já estabeleceram como patamar mínimo de ‘spreads’ um valor igual ou superior a 2%. Por outro lado, os clientes com um perfil de risco mais elevado estão sujeitos a um ‘spread’ cada vez mais penalizador. Seis em 13 bancos já prevêem um ‘spread’ máximo igual ou superior aos 5%. Se acrescentarmos a estes números os valores médios da taxa Euribor a seis meses em Maio, então é possível verificar que em algumas instituições os clientes com menos condições e com maior perfil de risco estão hoje sujeitos a uma taxa de juro nominal no crédito à habitação superior a 7%. É o que acontece, por exemplo, no BBVA, no BES e no Banco Popular.

Contas feitas, e tendo em conta o caso extremo de um cliente com maior risco e com um empréstimo de 100 mil euros a pagar em 30 anos, indexado à Euribor a seis meses e um ‘spread’ de 5,3%, este consumidor pagaria uma prestação de 665,77 euros. Um valor muito superior aos 450 euros de encargos mensais com o crédito da casa, caso o consumidor tivesse acesso a um ‘spread’ de 1,82% (a média dos ‘spreads’ mínimos de 13 bancos, actualmente em vigor).

No entanto, é preciso ressalvar que estes valores, apesar de constarem nos preçários dos bancos, não significam que estejam a ser colocados em prática. Recorde-se que a crise da dívida soberana e as dificuldades de acesso ao financiamento levaram os bancos a restringirem a concessão de crédito às famílias. As instituições financeiras privilegiam sobretudo a concessão de empréstimos às famílias com melhor notação de risco. Ou seja, aquelas que têm um maior envolvimento com o banco e que apresentam um rácio de financiamento/garantia baixo (na ordem dos 60%). Perante este aperto de condições, os bancos dificilmente concederão crédito a clientes com um perfil de risco tão elevado.

Depois das subidas verificadas desde o início do ano até agora, Filipe Garcia acredita que vamos entrar num período de estabilização. ‘Acredito que a maior parte da subida já terá acontecido e foi consistente com as progressivas dificuldades de financiamento dos bancos e com o maior nível de risco atribuído ao país. A situação pode agora caminhar para alguma estabilização, dado o início da implementação das medidas do acordo com a troika e com a conclusão do processo eleitoral’, adianta o economista. Mas, mais importante que o nível dos spreads “é a diminuição do crédito concedido a particulares, mostrando pouca disponibilidade da banca para estes contratos”.

Fonte: Económico (adaptado)