Exclusivo Euronext Lisbon


Portugal enfrenta dois novos paradigmas, nos quais o mercado de capitais pode e deve ter um papel muito relevante.



O nível de endividamento global das empresas (não financeiras) em Portugal atingiu quase 160% do PIB em 2009 e é um dos mais elevados da Europa. A maior parcela do endividamento global atrás referido (108% do PIB em 2010, medido pela posição de investimento internacional) assenta essencialmente em financiamento externo, (e não em poupança interna, como acontece noutros países) chegando às empresas através dos bancos. Em 2000, o endividamento externo era apenas de cerca de 41% do PIB português.











Pela primeira vez nos últimos 30 anos, o crédito às empresas está a diminuir em termos absolutos. Após muitos anos de crescimento intenso, em alguns períodos a taxas de dois dígitos, as estatísticas do Banco de Portugal revelam uma redução anual do crédito às empresas (não financeiras) de 0,2% (ano que terminou em Fevereiro). Também de acordo com a mesma fonte, as taxas de juro cobradas pelos bancos às empresas nos novos empréstimos estarão, em média, 20% a 30% acima do que se observava há cerca de um ano.



Com base na informação disponível, não só os níveis de endividamento têm vindo a crescer a um ritmo muito elevado como se afiguram insustentáveis sem um cenário de crescimento económico forte, o que parece de difícil concretização num horizonte mais próximo. Os recentes desenvolvimentos relacionados com as dificuldades de acesso a crédito externo pelo Governo vieram tornar mais visível e evidente esta realidade, que o sistema financeiro e as empresas já vêm incorporando nas suas decisões.



Do exposto parece ficar claro que o caminho que vinha sendo seguido está a ser invertido e um novo paradigma do financiamento às empresas tem que ser encontrado. O reforço dos capitais próprios é incontornável, e todos os instrumentos e mecanismos que possam ajudar nesse sentido são poucos. Um dos principais objectivos de levar uma empresa para a Bolsa é, precisamente, dar-lhe acesso a uma fonte adicional de financiamento de capital. O crescimento e a internacionalização das empresas, a sua capacidade de investigar e inovar carecem de capital. O endividamento precisa, ele próprio, de uma base de capital crescente, e em tempos de crise surgem oportunidades para fusões e aquisições, que poderão ser muito facilitadas com recurso ao mercado de capitais. Adicionalmente, a colocação de capital através da Bolsa dá às empresas acesso a uma base muito alargada e diversificada de investidores, cujo objectivo é obter um retorno adequado para o risco do investimento que estão a fazer.



A entrada de novas empresas em Bolsa, que sofreu uma quase paralisia no final de 2008 e início de 2009, tem recuperado vigorosamente na maior parte das praças financeiras internacionais. Em 2010 realizaram-se na Europa cerca de três vezes mais IPO que em 2009, a que correspondeu um montante de capital levantado de cerca de quatro vezes superior. Esta tendência positiva é ainda mais acentuada nos EUA. Neste contexto favorável do mercado há, certamente, oportunidades para as empresas portuguesas que mostrem capacidade de crescer, de serem competitivas e de inovar.



Não obstante a "promoção negativa" que tem afectado Portugal, como resultado dos problemas associados à dívida soberana, as empresas portuguesas contam com um argumento adicional para se valorizarem aos olhos dos investidores (nomeadamente internacionais) que é o facto de conseguirem ultrapassar adversidades maiores do que as suas congéneres de países que têm estado protegidos deste problema.



O novo paradigma da poupança individual

A poupança em Portugal atingiu níveis historicamente baixos e incompatíveis com a necessidade de financiar despesas futuras inevitáveis. Se ainda em 1990 a taxa de poupança das famílias se encontrava acima de 20% do rendimento disponível, esta taxa terá descido abaixo de 10% nos últimos anos, embora revelando alguma inversão a partir de 2008. Os portugueses apresentam também uma das taxas de poupança mais baixas de todos os países da zona euro, cuja média ultrapassa os 15%. Na impossibilidade de o Estado continuar a financiar os níveis de protecção social actuais, as pessoas individuais terão que aumentar os seus níveis de poupança, pois serão crescentemente confrontadas com a necessidade de fazer face a despesas para as quais não se têm vindo a preparar adequadamente: complemento de pensões, educação dos filhos, saúde, e até o valor da entrada para uma casa ou um carro (já dificilmente se conseguem créditos que cubram a totalidade dos bens a adquirir).



Os níveis de poupança terão que crescer e essas poupanças devem ser aplicadas em instrumentos que retornem rendibilidades elevadas, sob pena de o "sacrifício presente" não ser adequadamente compensado no futuro. Os tradicionais instrumentos de dívida e depósitos bancários, em exclusivo, não oferecem essas rendibilidades, sobretudo numa lógica de investimento a prazos mais longos. O investimento em produtos cotados, nomeadamente em acções tem-se revelado um importante componente da melhoria do desempenho das carteiras de investimento desta natureza.

Idealmente, este incremento expectável na poupança nacional devia ser captado para financiar as empresas portuguesas, mas se a oferta não for suficientemente atractiva ou diversificada, essa poupança acabará por ser aplicada em empresas estrangeiras. Os investidores individuais terão um papel relevante no financiamento das empresas portuguesas no futuro, através do mercado de capitais.



As mudanças de paradigma constituem desafios complexos e exigirão certamente muito esforço e criatividade de todo o ecossistema empresarial e financeiro, mas quanto mais cedo iniciarmos o "caminho certo", maior probabilidade teremos de prosperar.



Fonte: Económico