A inflação é o pior inimigo das poupanças. Os portugueses têm quase 30 mil milhões de euros “parados” em depósitos à ordem.

À taxa de inflação actual, 4,04%, as famílias portuguesas estão a perder 1,2 mil milhões de euros por ano em depósitos à ordem. Mesmo considerando a taxa de inflação estimada pelo Banco de Portugal para este ano, 3,6%, a perda de poder de compra continua a ser superior a mil milhões de euros. Embora algumas destas aplicações beneficiem de remuneração, o seu valor médio é marginal: 0,08%.




Em Fevereiro, os depósitos à ordem de particulares representavam quase um quarto do total de depósitos das famílias portuguesas, um rácio que fica, ainda assim, bastante aquém da média da zona euro, que atingiu, no mesmo mês, 38,5%.

"No passado ‘remoto', o rácio, em Portugal, manteve-se em redor de 20%, pelo que os níveis actuais não fogem muito à norma. Aliás, desde 2007 que o peso dos depósitos à ordem no total tem vindo a reduzir-se de forma significativa, desde uma percentagem acima de 32%", refere Rui Constantino, economista-chefe do Santander. O peso dos depósitos à ordem no total de depósitos parece estar intimamente ligado com o efeito de taxas de juro.

Entre 2008 e 2010, um período histórico de descidas nas taxas Euribor, que servem também como referência para as taxas de remuneração dos depósitos a prazo, os portugueses voltaram a deixar uma maior fatia das suas poupanças "parada" em depósitos à ordem.

Uma tendência que se inverte novamente desde meados de Julho de 2010, à medida que apertam as necessidades da banca em captar recursos de clientes, o que se traduz em taxas de juro mais atractivas nas aplicações a prazo (ver texto ao lado). "O custo de oportunidade de detenção de depósitos à ordem perante subida das taxas de remuneração dos depósitos a prazo é já considerável, levando os particulares a deslocarem-se de um produto mais mal remunerado para outro mais bem", justifica a economista-chefe do BPI, Cristina Casalinho. Ainda assim, e apesar deste valor estar em queda há três meses consecutivos, os portugueses detêm 29,6 mil milhões de euros em depósitos à ordem. Na justificação do fenómeno, "atribuiria mais peso, não tanto à iliteracia financeira, mas mais à inércia relativamente aos investimentos. Se considerar falta de conhecimento ou sensibilidade às taxas de juro praticadas, iliteracia, então esse é claramente um argumento importante", diz Cristina Casalinho.

É certo que o peso que os depósitos à ordem representam no total de depósitos fica bastante abaixo da média europeia. No entanto, essa realidade pode ficar a dever-se simplesmente ao facto de a percentagem da poupança encaminhada para depósitos a prazo pelos portugueses ser também bastante superior à de outros países da zona euro, aumentando assim o total de depósitos. "No passado, fizemos um levantamento das aplicações de fundos das famílias portuguesas e integravam o grupo dos países mais conservadores nas suas estratégias de investimento, sendo os depósitos à ordem e os depósitos a prazo uma parcela muito representativa do seu património", adianta a economista-chefe do BPI.

Cada depositante tem, em média, 1.170 euros à ordem, um valor que poderá ser considerado insuficiente para constituição de uma poupança a prazo, servindo antes para as necessidades correntes de consumo das famílias portuguesas. Ainda assim, o valor investido em depósitos a prazo tem vindo a aumentar. Nos últimos três meses, o montante total de depósitos a prazo cresceu 3,2 mil milhões de euros, enquanto no mesmo período saíram dois mil milhões de euros dos depósitos à ordem. Ou seja, um saldo positivo de 1,2 mil milhões de euros. "O que penso que é de ressalvar: não se assistiu durante todo este período - e em especial nos meses mais recentes, em que a instabilidade tem sido maior - a qualquer redução dos depósitos de particulares, o que reflecte bem a situação mais segura dos bancos nacionais e a confiança que as famílias continuam a ter no sistema", conclui Rui Constantino.

Fonte: Economico