A economista que chefiou a delegação do FMI em Portugal em 1983 diz que “desta vez a intervenção terá de ser mais abrangente”.

Teresa Ter-Minassian admite que Portugal precisa de um ajustamento das contas públicas "prolongado", mas remete para os colegas que estão em Portugal as medidas a adoptar, não afastando a hipótese de um novo aumento dos impostos. Em entrevista ao Diário Económico, a economista que chefiou a missão do FMI que esteve em Portugal em 1983 reconhece, contudo, que "desta vez a intervenção terá de ser mais abrangente". A antiga conselheira do director do FMI, Dominique Strauss-Kahn, sublinha que ao contrário do que se possa pensar, o FMI "nunca vai com receitas pré-definidas para um país".



Como será a intervenção do FMI desta vez em Portugal? Será semelhante ao que foi feito em 1983?
Em 1983, a acção foi mais ao nível da estabilização da economia no curto prazo e ajuste das contas externas. Mas o ajuste das contas públicas também é agora muito importante. Contudo, os instrumentos têm de ser diferentes. Em 1983, houve a possibilidade de se recorrer à alteração da taxa de câmbio como medida de ajustamento externo, por exemplo. Julgo que agora a resposta tem de ser não só ao nível dos ajustamentos orçamentais, que também já têm vindo a ser desenvolvidos e executados pelo Governo actual, mas também ao nível de reformas estruturais que vão assegurar que existe uma melhoria na competitividade sem ter de alterar a taxa de câmbio, até porque isso também já não é uma opção e, grosso modo, melhorar as perspectivas de crescimento no médio prazo.

Desta vez a intervenção terá de ser mais abrangente. O enfoque tem de ser muito mais sobre medidas que aumentem a produtividade e reduzam custos, e também ao nível da liberalização de alguns sectores que ainda não são muito abertos à concorrência. Será também uma boa oportunidade de reduzir custos nos serviços, que engrossam as despesas com salários e os custos de trabalho.

Que sectores?
Não estudei isso muito em detalhe porque agora não estou a acompanhar a economia portuguesa tão de perto, mas considero que nos sectores da energia, das ‘utilities', da saúde. E também há necessidade de melhorar a composição dos gastos públicos e a sua eficácia nomeadamente na educação, porque isso é fundamental no médio prazo para melhorar a competitividade da força laboral portuguesa.

Que medidas serão aplicadas desta vez em Portugal para resolver esses problemas?
Não sei, nem tenho discutido com os meus colegas do Fundo porque não me quero envolver, mas o director-geral, num artigo recente publicado num órgão de comunicação português, disse que haverá uma combinação de medidas para ajustar as contas públicas com medidas para melhorar a competitividade, o que significa essencialmente aumentar a produtividade assegurando que os custos sejam os mais baixos possível.

O detalhe das medidas é para o ‘staff'. Eles estão aí a fazer o levantamento de todas as informações que são necessárias para chegar a um retrato o mais correcto possível [da situação do País] e ao pacote de medidas mais apropriado porque, contrariamente ao que se pensa, o fundo nunca vai com receitas pré-definidas para um país.

Mas é possível que haja novo aumento de impostos e corte de salários dos funcionários públicos?
É claro que é preciso um ajustamento mais prolongado, ao longo dos próximos anos, das contas públicas. Qual será exactamente a composição desse ajuste, o tamanho desse ajuste, a forma como se vai distribuir ao longo dos próximos anos, isso depende das negociações.

Fonte: Economico